Relato do meu primeiro triathlon — Que experiência!

PRÉ PROVA

“Amanhã faço minha primeira prova de triathlon”. — Foi assim que eu comecei a escrever o meu relato pré prova e eu confesso que nesse momento meus olhos estavam marejados e meu coração já, levemente, acelerado.

Kit de triathlon que tem o número de colocar na camiseta, outro na bicicleta, a camisa da competição, cadarço de elástico de tênis e uma camisa da marca “Vida de quem corre” esticada no fundo
Kit pré prova — Uaironmein 2021

Continuei… “Hoje é dia de meditar e me orgulhar dessa trajetória, de olhar para trás e lembrar dos dias que eu não via cor, de um nó na garganta que parecia que não iria desatar e também recordar da angústia que fazia morada dentro de mim. Lembrar das tantas vezes que eu me senti pequena, culpada e sem saída.

(…) por isso, essa prova de amanhã é um marco. Uma celebração. Celebrar a vida!”

Começa a passar um filme na minha cabeça e as ideias vão de “isso faz muito sentido” até “pra que que eu to fazendo isso?”.

Pensar nas horas e horas de treino e dedicação para chegar até aquele dia mexeu comigo e colocando em palavras, escrevi:

“(…) é dia de celebrar que eu vivi um dia após o outro, doando o que eu tinha de melhor naquele momento… respeitando o meu corpo e minha mente”

Ser dedicado e disciplinado não significa não falhar ou não pensar em desistir. Minha caminhada está longe de qualquer linearidade e eu acho que é isso que faz dela mais divertida.

O tempo de preparo até minha primeira prova foi de 1 ano, parece e é pouco perto da vida que tenho pela frente, só que isso não diminui qualquer merecimento de uma boa comemoração deste feito.

Em detalhes, segui meu relato:

“Não foi uma mudança radical, foi gradual. E não foi nada diferente do que eu já corria atrás. Eu gosto da minha vida com desafios no esporte, gosto da adrenalina na largada. Sou apaixonada pelo clima de uma prova e por estar perto de pessoas que vibram na mesma energia.”

Nessa hora eu já me sentia 100% imersa no momento e continuei:

“Eu estou com um frio na barriga gostoso que não sentia há muitos anos! Por tanto tempo eu me cobrei e me frustrei por não senti-lo quando havia conquistado coisas que eu queria…”

SENTIR.

“O triathlon me fez sentir, me fez arrepiar, me fez emocionar”.

Estava pronta, radiante e, o melhor, feliz.

O DIA DA PROVA

Por incrível que pareça, eu não tive problemas para dormir e o dia anterior não foi diferente do que já estava acostumada.

Tomei muita água durante o dia, comi saudável e leve, fui deitar para dormir por volta de 21h30, como de costume.

(Minha preocupação era conseguir ir no banheiro antes da prova para que não precisasse chegar nem perto de usar o banheiro químico da competição porque, sério, é tenso! rsss — Deu tudo certo!)

Acordar 4h da manhã não foi difícil e eu já estava entusiasmada. Nesse momento já sentindo algo diferente que eu não sabia se era dor ou frio na barriga.

Engraçado que eu me sentia assim somente em competições de basquete quando era criança e, depois de tanto tempo, eu praticamente voltei no tempo e relembrei da Gabi de 14/15 anos que ficava a 1000 por hora antes de qualquer final de campeonato.

Respirei fundo inúmeras vezes. Era hora da diversão.

As vezes eu penso que não sou mais tão competitiva quanto era antigamente. Só que a verdade é que nós estamos sempre competindo, o que muda é pelo quê e com quem.

Foi um sentimento diferente de fazer algo pela primeira vez e de sentir que eu estava preparada para executar. Eu sabia que conseguiria, mas estava ansiosa para viver cada suor daquelas próximas 3h.

Eu estava presente, atenta.

Tive o privilégio de compartilhar cada momento com a minha parceira de vida e melhor amiga. A Lê é minha referência, eu sabia que ela estaria por perto e seria uma troca mútua.

Entramos na lagoa (eu, Lê e Theo) e com o coração na mão eu arrisco dizer que ali foi a minha parte predileta da prova. Lado a lado eu a vi olhando pra frente, fazendo sinal da cruz enquanto eu verbalizada com um tom de desespero disfarçado: “Meu Deus, me guie, proteja, ilumine, guarde e tudo que eu tiver direito nesse momento. Amém”.

Minutos antes da largada: “Meu Deus, me guie, proteja, ilumine, guarde e tudo que eu tiver direito nesse momento. Amém”

Depois disso, largamos…

NATAÇÃO

Na hora que foi dada a largada era como se toda aquela ansiedade sumisse e iniciasse uma luta por sobrevivência. REAL.

O meio aquático já não é o que eu me sinto mais a vontade e ali com o agravante de estar em um cardume humano (literalmente) foi um tanto quanto caótico.

Não é tranquila a parte da natação, você acaba levando chute, puxão no pé, tapa de final de braçada e por aí vai.

Fora que é difícil para caramba nadar em linha reta (rs) — sorte que tenho bons treinadores que tinham me preparado para fazer respiração frontal e navegação (e também sustentação do corpo na água).

O plano inicial era eu ir na esteira da Lê, que já tem mais experiência do que eu em provas de triathlon e aquáticas, só que já na primeira boia eu fiquei pra trás quando me assustei (pra não falar afoguei) com o tanto de gente em funil fazendo o contorno. É uma loucura.

Eu tive vontade de rir e, se não me engano, até parei uns 2 segundos e dei uma risada enquanto pensava: “caraiiii, vei, que que é isso?”

A parte boa foi que aquilo não me deu nenhum tipo de pânico ou desespero a ponto de querer parar. Então continuei em ritmo de 2 braçadas para cada respiração.

Cheguei a escutar pessoas pedindo ajuda ao staff, mas aquilo não me abalou.

Segui nadando e até procurei a Lê por mais uns 100m, só que era impossível. Eu sou míope e meu óculos estava bem embaçado, não conseguia enxergar nem a boia… por isso, acabei me orientando por outras pessoas (o que não é o ideal, mas acontece).

Não demorei muito para conseguir encaixar um ritmo confortável, eu não queria fazer força porque sabia que ainda tinha bastante chão pra rodar. Então optei pela minha zona de conforto.

Sair da água bem foi um alívio e é doido porque nem dá tempo de ficar muito feliz, quando você pisca, você já está na área de transição pensando na próxima modalidade.

Momento que eu saí da água e estava tentando raciocinar o que estava acontecendo

Procurei a Lê, de novo, mas ela já devia estar longe… então eu segui no meu ritmo de cruzeiro. Rssss

Não tinha pressa e não queria estragar minha roupa de borracha, então eu a tirei e ainda fiz questão de pendurar direitinho (não conseguia pensar em muita coisa, mas isso eu lembrei… Deus me livre estragar um bem tão caro).

Na hora que eu tirei a roupa de borracha eu olhei em volta e as meninas da minha categoria estavam do meu lado na área de transição. Ou seja, tinha saído todo mundo junto da água (menos a Lê, que foi a terceira geral a sair — peixinha, né?).

Eu demorei um tempinho a mais pra colocar a meia e fazer uma contagem mínima se não estava esquecendo nada… adiantou nada, porque esqueci minha paçoca.

(A minha parte de alimentação foi muito fraca, durante os treinos eu tomava apenas carboidrato diluído na água e comia paçoca eventualmente. Como meu estômago já não é dos melhores, eu que não seria maluca de arriscar qualquer coisa diferente disso na prova)

Nessa hora já sozinha, fechei minha sapatilha, coloquei óculos, afivelei o capacete, tirei minha bike do suporte e sai…

Pausa para vocês observarem nessa imagem como foi esse momento:

Nessa hora eu pensava: “você sabe clipar, você sabe clipar”

E assim segui para a próxima modalidade: ciclismo.

CICLISMO

Se o meio aquático não é o meu melhor, arrisco dizer que sobre 2 rodas é ainda pior… ainda estou muito insegura e medrosa na bike e isso me limita.

Clipar (encaixar a sapatilha no pedal) não é algo tão simples para quem já está em um contexto de insegurança, então isso fez minha frequência cardíaca subir significativamente, ainda mais quando eu vi que o piso da área de monte não era o melhor cenário, pelo contrário, era bem cheio de buracos.

Do chão não passa e, apesar de já ter caído algumas vezes, eu sei clipar. Então partindo desse pressuposto, fui.

Eu tentando manter a calma e aproveitar o momento ao mesmo tempo. Rss

Clipei lembrando do meu cunhado falar: “continua girando mesmo se não conseguir encaixar de primeira”. Fiz isso e na terceira tentativa, consegui!

Tinha 30km pela frente (que no final foram 33km, mas tudo bem).

Em competição assim parece fácil você levar seu corpo um pouco além, fazer seus melhores tempos, dar uma puxadinha, sabe?

Só que eu não estava confiante para fazer nada além do que eu já tinha treinado. Tinha um pensamento dentro de mim que prevalecia: “calma, depois disso tem 10km de corrida” . E eu segurei a onda.

Durante a prova eu vi algumas pessoas me passando e eu tentava simular exatamente o que eles estavam fazendo, só que o esforço que eu fazia para aguentar 50m na roda deles era tão grande que seria insustentável. Não dava!

Então eu decidi fazer o meu ritmo e o tempo todo tentava trazer minha cabeça pro agora. Eu pensava: “Aproveite o agora, você imaginou tanto como seria esse momento, agora que você tá vivendo tente concentrar e curtir”

Foi divertido o pedal.

O asfalto era um tapete e isso me ajudou a sentir mais segura.

Relembrar a prova me faz sorrir, estou sorrindo agora enquanto escrevo tentando lembrar os detalhes.

Por volta do km 23 eu encontrei com a Lê voltando, ela estava mais ou menos no km 28 nessa hora… por alguns segundos eu pensei que daria para alcançar para terminarmos juntas, mas 5km é muita coisa e ela estava forte.

Nessa hora eu me senti bem, como quem olha para aquela situação toda e pensa: “se eu pudesse escolher, estaria exatamente no mesmo lugar, com a mesma pessoa ao lado.”

E assim segui para a parte final do pedal… o desmonte não chegou a ser um ponto de tensão, estava me sentindo bem e pronta para a parte final.

Cheguei na área de transição, tirei capacete, sapatilha, coloquei a bike no suporte, calcei meu tênis de corrida, olhei para meu boné e optei em não colocá-lo… saí para os 10km de corrida.

CORRIDA

Quando eu sai para correr eu senti uma leve pontada na minha coxa esquerda e ali naquela hora mesmo eu já pensei “nem começa com palhaçada que tô sem tempo pra isso” … acredite se quiser, mas a pontada foi embora assim que vi o primeiro morro.

Sim, morro. Foram 10km com MUITA subida. Prova duríssima.

Só que eu estava tão feliz de estar correndo, aquilo significava tanta coisa, inclusive que eu tinha passado pela natação e ciclismo sem grandes problemas, que eu comecei a rir…

Chegar na corrida inteira era um motivo de comemoração.

“Caramba, que daora! Chegou na minha parte favorita”

A quantidade de subida que tinha não me tirou do sério em nenhum momento e meu corpo estava respondendo bem aos meus comandos, estava me sentindo forte dentro da minha condição física.

Quando estava perto dos 5km eu vi uma pessoinha de macaquinho branco e preto e só pelo jeito de andar eu sabia que era a Lê, só que avistá-la nessa altura do campeonato não era bom sinal.

Ela tinha chegado 6 minutos antes de mim na natação, quase 8 minutos antes na bike… não era bom sinal eu tê-la alcançado na corrida.

Ela estava com dores fortes no posterior da coxa o que a obrigou a fazer 10km intercalando 30seg de corrida e 30seg de caminhada… Eu cheguei a oferecer para ir ao lado dela, mas ela disse que estava sob controle e me pediu para que eu seguisse no meu ritmo…

Eu no lugar dela, nessa situação, faria a mesma coisa.

E, por mais, que a gente faça tanta brincadeira com competição uma com a outra, o cuidado e zelo são maiores do que qualquer premiação. Antes de seguir a corrida eu perguntei: “tem algo que eu possa fazer por você agora?”. Ela enfatizou que não.

Antes de seguir, compartilho o registro desse momento:

A legenda pode ser: “antes do divórcio” ou “pode ir que depois a gente conversa”

Quando estava perto do km 6, no meio de uma subida olhei para trás e brinquei com um homem que estava no mesmo ritmo que eu “bora, vem que to te puxando” — Era o Pedro (Henrique ou Lucas, não me lembro), mineiro arretado, lá de Araxá, também estava na sua primeira competição de triathlon e seguimos de prosa por cerca de 3km… Lógico que com pausas na resenha para recuperar a respiração.

Passamos por um posto de hidratação e ali quando vi uma Coca-Cola, eu quem não sou fã de refrigerante, bebi cerca de 1/4 do copo na tentativa de ter qualquer injeção de glicose para me ajudar nessa última etapa.

Continuamos correndo lado e lado e durante o percurso, outro mineirin nos encontrou e pediu um abraço coletivo enquanto corríamos (nem tente imaginar). Lógico que eu dei pala né. Quando eu imaginaria que isso aconteceria perto do meu último quilômetro, com quase 3h de prova?

Foi engraçado… fiquei rindo sozinha um tempo e logo percebi que estava na reta final.

Despedi dos meninos e apertei o passo. Estava acabando.

Para ajudar, nos últimos 300 ou 400m era uma descida gostosa, dessas que você embala e vai. Aproveitei.

Ao terminar a última curva já dava para avistar o pórtico, que ficava atrás de uma porteira, bem coerente com o nome da prova UAIronmein.

Eu fiquei arrepiada, abri um sorrisão e pensei “puta que pariu, eu consegui”

Calma… tô chorando de novo enquanto escrevo.

O momento exato do “pqp, eu consegui”

Peguei minha medalha, olhei para ela e com o óculos disfarçando, chorei.

Chorei um choro de quem tinha conquistado e treinado muito para viver aquele momento.

Chorei pensando que aquilo era mais um passo na jornada para conquistar o meu próximo desafio (uma distância ainda maior).

Chorei porque eu quis muito viver aquilo.

Para finalizar, eu reforço, o triathlon me fez voltar a sentir e isso não tem preço.

Choro disfarçado…

Se você chegou até aqui, muito obrigada!

Nos vemos pelo caminho.

De coração,

Gabi

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Treinando para o meu primeiro IronMan 70.3. Nesse espaço compartilho minha jornada e várias versões da Gabriela. Sejam bem-vindos!

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Gabriela Melo

Gabriela Melo

Treinando para o meu primeiro IronMan 70.3. Nesse espaço compartilho minha jornada e várias versões da Gabriela. Sejam bem-vindos!

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